O Algarve é, há décadas, um dos palcos principais do turismo em Portugal, continuando a liderar as estatísticas nacionais. Hotéis cheios, praias lotadas, receitas elevadas. Todos os anos, milhões de visitantes internacionais e, ainda, muitos deles nacionais, escolhem a região pela reconhecida hospitalidade, pela qualidade dos lugares escolhidos e pelo profissionalismo das equipas que dão a cara a cada serviço.
Contudo, por detrás de estatísticas e gráficos coloridos, há uma fragilidade que cresce em silêncio e que indica vir a sufocar o próprio modelo que o Algarve construiu à volta da sazonalidade: a escassez de profissionais qualificados para o sector e a crescente dependência em trabalho temporário… com a consequente instabilidade e impacto direto na qualidade do serviço.
O turismo é um setor de detalhe, de emoção e de experiências. E não há detalhe ou emoção que resistam quando a hospitalidade algarvia se transforma num jogo de substituições constantes e, a médio prazo, esta volatilidade afetará a reputação e a perceção de valor da região.
Este modelo sazonal tornou-se uma solução comum (e fácil) no turismo da região. É verdade que trouxe vantagens inegáveis: (1) flexibilidade em momentos críticos do ano, quando a escassez de mão-de-obra local era gritante, (2) cria oportunidades para novos profissionais desenvolverem competências e experiências diversificadas (um dos mais importantes, a componente linguística), (3) oferece uma resposta imediata às flutuações de procura sem comprometer a operação e permitindo às empresas reduzir encargos fixos e ajustar necessidades.
No entanto, aqui surge o inevitável “mas”… quando este modelo não é acompanhado por uma estratégia bem definida e por mecanismos de controlo rigorosos, tem um efeito colateral devastador, no negócio: (1) equipas voláteis, sem sentimento de pertença, espírito de equipa e responsabilidade (2) processos descontinuados e inconsistentes (3) perda de qualidade na experiência do cliente e (4), por consequência, impacto na rentabilidade!
E como se traduz esse impacto? Pela óbvia perda de receita e pelo impactado (des)controlo de custos. Nas compras e negociação, por exemplo, a ausência de equipas estáveis tem um efeito direto e visível na perda dados, de histórico e memória negocial, assim como aumenta a imprevisibilidade operacional. Quando a operação é instável, o consumo torna-se errático e passa a ser imprevisível, encarecendo a cadeia de abastecimento, ou seja, sem previsibilidade, não há negociação exequível, pois há muita reação sem planeamento, tornando-se difícil manter contratos sólidos e preços estáveis. O custo dessa reação improvisada é pago com margens cada vez mais curtas, já bastante pressionadas pela inflação e pelo “normal” preço da sazonalidade.
O modelo “massificado e sazonal” começa a dar sinais de fadiga, principalmente face à sobrecarga operacional das equipas, a falta de formação adequada e a escassez de profissionais qualificados alimentam um ciclo vicioso de turnover e desmotivação. E não, este ciclo não prejudica apenas as empresas ou o serviço ao cliente. É igualmente nocivo para os colaboradores que não têm estabilidade e segurança, tornando-se um ciclo infinito de falta de confiança, compromisso e entrega.
Importa também reconhecer o papel das empresas de trabalho temporário, que têm feito parte da solução. Elas respondem a uma necessidade real num mercado altamente volátil e adaptam-se à procura profundamente sazonal. O desafio está em transformar essa relação numa parceria de valor, baseada em formação, acompanhamento e integração real dos profissionais de turismo nos sítios mais adequados.
O turismo algarvio precisa de uma abordagem holística, mais colaborativa entre empregadores, entidades públicas e empresas de trabalho temporário. É urgente repensar o modelo de contratação e a forma como se valorizam os recursos do sector, não apenas como resposta à sazonalidade, mas como uma estratégia de desenvolvimento regional. Mais do que contratar por necessidade, o futuro do turismo passará por negociar com propósito, criando condições dignas, estáveis e sustentáveis. A criação de programas de formação contínua, o investimento em alojamento acessível e a valorização das carreiras no setor são caminhos essenciais para reter talento e garantir qualidade do serviço.
A hospitalidade não pode continuar a ser tratada como um produto temporário, quando o que está em jogo é a sustentabilidade de toda uma região.
O Algarve tem tudo para continuar a ser uma referência em turismo. Falta-lhe apenas reencontrar o equilíbrio entre a flexibilidade que a sazonalidade exige e a estabilidade que o serviço merece!
